Episódio #9 O ciclo vicioso das narrativas

Apr 30, 2026 |
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Episódio #9 O ciclo vicioso das narrativas

As histórias que repetes sobre ti moldam a tua identidade. Descobre como quebrar narrativas antigas e abrir espaço para uma nova versão.

E se eu te disser que és uma excelente contadora de histórias? Acreditas?

Na verdade, somos todas. Só que nem sempre contamos histórias aos outros, contamos sobretudo histórias a nós mesmas.

Não falo da história dos três porquinhos, nem das que ouvíamos em pequenas. Falo das histórias que foste construindo ao longo da vida e que, sem dares por isso, começaste a repetir como se fossem verdades absolutas.

“Eu sou assim.”
“Eu nunca consigo manter nada.”
“Eu começo, mas não acabo.”
“Eu não tenho disciplina.”
“Isto não é para mim.”
“Já vou tarde.”
“Agora já não faz sentido mudar.”

O mais curioso é que quanto mais repetes uma narrativa, mais ela parece real; quanto mais ela parece real, mais ages de acordo com ela e quanto mais ages de acordo com ela, mais provas arranjas para continuar a acreditar nela.

E assim nasce o ciclo.

A narrativa que repetes começa a confundir-se com identidade

As narrativas internas têm um poder imenso, precisamente porque não ficam só na cabeça. Influenciam a forma como te vês, a forma como decides, a forma como te posicionas, a forma como desistes antes de tentar e até a forma como toleras uma vida que já não combina contigo.

Uma narrativa repetida vezes suficientes deixa de parecer uma opinião e começa a confundir-se com identidade.

Isso é perigoso.

Porque uma coisa é dizeres:
“Neste momento, estou cansada.”

Outra, muito diferente, é dizeres:
“Eu sou uma pessoa sem energia.”

Uma coisa é dizeres:
“Ainda não consegui criar consistência.”

Outra é concluíres:
“Eu sou inconsistente.”

A diferença é subtil mas muda tudo. A primeira frase abre espaço. A segunda fecha-te numa personagem.

E quantas vezes passamos anos fiéis a uma personagem que já nem nos representa, só porque a repetimos tantas vezes que se tornou familiar?

A mente adora o familiar mesmo quando o familiar é limitador.

A mente adora repetir o mesmo argumento

A mente é um lugar habitado por Spielberg, só que, em vez de estreias constantes, às vezes o que temos é o mesmo argumento em loop, a mesma banda sonora dramática e o mesmo casting emocional de sempre.

Mudam os cenários, as pessoas, a fase da vida mas o enredo repete-se:

“Não sou capaz.”
“Não sou suficiente.”
“Não tenho tempo.”
“Não consigo mudar.”
“É sempre a mesma coisa.”

O problema não está apenas em pensares isto. O problema está em viveres a partir disto.

A narrativa que alimentas começa a filtrar aquilo que vês. Faz-te reparar mais no que confirma a tua limitação do que naquilo que mostra a tua capacidade. Apaga sinais de crescimento, desvaloriza pequenas vitórias e mantém-te presa a versões antigas de ti.

Mudar a vida também passa por mudar a interpretação

É por isso que transformar uma vida não começa apenas com novos hábitos, começa também com novas interpretações.

Começa com a coragem de parar e perguntar:

Isto é uma verdade ou é só uma história que tenho repetido muitas vezes?

Nem tudo o que pensas é facto, nem tudo o que sentes é destino, nem tudo o que repetes te define.

Às vezes, a mudança começa quando deixas de acreditar cegamente em todas as frases que a tua mente te serve com ar de autoridade.

A mente, por vezes, fala como se tivesse doutoramento em verdade absoluta, quando na realidade só está a reciclar medos antigos com uma boa dicção.

O objetivo não é pensar positivo à força

O objetivo aqui não é fingir que está tudo bem, nem colar frases bonitas por cima de feridas reais. Nada disso. Também não somos apologistas de puns de unicórnio.

O verdadeiro trabalho passa por ganhar consciência.
Perceber quais são as histórias que te expandem.
E quais são as histórias que te encolhem.

Passa por observar a forma como falas contigo.
Passa por questionar aquilo que assumiste como definitivo.
Passa por perceber se aquilo que hoje chamas “quem eu sou” é, na verdade, apenas uma narrativa antiga que ficou demasiado confortável.

As perguntas que podem mudar a tua história

Talvez valha a pena parares e perguntares:

  • Que história tenho repetido sobre mim?
  • O que é que esta narrativa me faz acreditar?
  • Como é que ela influencia a forma como vivo?
  • Quem seria eu sem esta frase colada à minha identidade?

Muitas vezes, o problema não está na tua falta de capacidade, está no excesso de fidelidade a uma narrativa antiga. Talvez esteja na altura de escrever outra.

Aquilo que repetes internamente, acabas por praticar externamente

A forma como falas contigo pode ser prisão ou ponto de partida.

Aquilo que repetes internamente acaba por se refletir na forma como te moves, como decides, como ages e como te relacionas com a tua própria vida.

Por isso, prestar atenção à tua narrativa não é um detalhe. É uma forma de te aproximares de quem és e da mulher que queres construir.

3 ideias-chave para levares contigo

1️ As narrativas internas moldam a forma como vives

O que repetes sobre ti influencia a tua identidade, as tuas escolhas e os limites que assumes como verdade.

2️ Há uma grande diferença entre estado e identidade

Dizer “estou cansada” não é o mesmo que dizer “sou uma pessoa sem energia”. Uma frase descreve um momento; a outra transforma esse momento em definição.

3️ Mudar a tua vida também passa por questionar a história que tens contado sobre ti

Nem tudo o que pensas é facto. Nem tudo o que repetes te define. Às vezes, a mudança começa numa interpretação diferente.

A pergunta final

Hoje, experimenta perguntar:

Esta é uma verdade sobre mim  ou é apenas uma história que tenho repetido demasiadas vezes?

Talvez a tua próxima mudança não comece num grande plano. Talvez comece na forma como falas contigo.